Murderers



Esse é um trecho do livro que eu estou escrevendo com a Aniella Ramos e o Raul Kruger. Estamos fazendo algumas melhoras.
Eu comecei escrevendo o livro no meu caderno de matemática (que não servia pra nada na época) 5 anos atrás.





O Encontro


O típico dia em que está tudo errado. Um dia no qual sua alma está desgastada, amarga; e você percebe que as coisas já não merecem mais o seu interesse. Até ao olhar para o lado você percebe que as pessoas estão te encarando de um modo diferente. Risos maliciosos, olhares de reprovação... Você se pergunta se isso é reflexo do seu humor afogado na mais profunda e lamacenta depressão ou se é apenas uma terrível paranoia criada pela sua mente perturbada. Esse tipo de problema deveria ser coisa passageira, principalmente nos adolescentes, que não sabem lidar com os hormônios num carnaval explosivo dentro de seus corpos em desenvolvimento, não é? Mas e se você carrega consigo esses sintomas, ditos normais, há tanto tempo que nem consegue se lembrar de como é ter paz de espírito? Nada soa tão simples quanto deveria ser. Toda essa angústia pode estar muito além de uma casca que aparenta delicadeza e ingenuidade. Qualquer interior pode ser destruído por uma consciência suja? Irrelevante. Vamos partir do pressuposto de que isso acontece com todo mundo pelo menos uma vez na vida.

Abigail andava pela rua com a sua usual serenidade subversiva. Seus trejeitos inspiravam aquela calma que alguns passam à vida toda buscando. Contudo havia algo de errado com ela. Abi deixara seu pequeno e escuro “lar doce lar” á alguns metros dali com uma sensação boa. Talvez essa sensação agradável que a consumia agora não fosse exatamente boa - não fosse certa. Não para uma assassina. Ela não era o tipo de pessoa que merecia algo de bom. Ela sabia disso, mas não se envergonhava da vida que escolhera pra si mesma, que acatara de bom grado. Tampouco se sentia feliz ou realizada. Somente continuava vivendo por falta de uma opção mais atraente.

A única coisa que a reconfortava no momento era estar sozinha, como assim desejou que estivesse durante o caminho para sua casa. A garota continuava andando pela avenida, cortando ruas e mais ruas, desviando do insistente fluxo de máquinas em todos os quarteirões poluídos. O olhar perdido, o corpo intocável - por mais estranho que pareça, nenhum carro ousava se aproximar. Ela controlava seu destino e o próximo passo seria o mundo.

Após percorrer o caminho de volta para casa, dando golfadas no ar gelado, a garota deixou seus músculos relaxarem ao entrar no apartamento grande demais para uma pessoa só e pequeno demais para uma família, que estava com uma temperatura muito mais agradável do que fazia lá fora. Com um leve tilintar de chaves trancou a porta e limpou as botas no capacho. Imediatamente sentiu Aghata roçando por entre suas pernas e ronronando por comida, o rabo pendendo formosamente de um lado para o outro.

- Sai daqui, sua gata fedida! – Ela ordenou de forma ríspida, fazendo um imperceptível movimento de mãos e jogando a gata para o lado. A felina pomposa saiu do cômodo com o olhar estreito e visivelmente ofendido.

Novamente sozinha Abi se via obrigada a comprimir suas pálpebras para impedir que o sol, tímido, saindo por entre algumas nuvens espessas, atingisse seus olhos cor de noite.

- Porcaria velha e empoeirada. - A cortina estava aberta. Ela a agarrou com suas unhas carcomidas, fechando-a num movimento brusco e barulhento. No instante seguinte, virou-se para observar a bagunça que se acumulava a alguns dias por cima de uma pequena estante. Revistas, dois copos sujos, discos espalhados e uma meia sem o seu par – suja, evidentemente – além de outras coisinhas pequenas que poluíam a visão de uma forma desagradável. Estudou por um segundo aquela situação calamitosa, mas o pensamento de arrumar aquele monte de tralhas foi embora tão rápido quanto veio. Desgostosa, resolveu ir até a sala de estar, já que esse ainda era um dos únicos aposentos que se mantinham organizados, apesar de que seu irmão - Erico - podia muito bem ter deixado mais essa parte da casa inabitável.

Uma expressão gratificante de alívio iluminou seu rosto quando ela viu que tudo ainda estava em ordem na sala, então se espreguiçou (ocasionando alguns estalos leves em suas costas) e se deparou com um pequenino álbum de fotografias que jazia em cima da mesinha de centro. Abigail o apanhou com uma das mãos, então se acomodou num sofá branco posicionado em uma das paredes cuja tintura ruía tristemente, deixando infiltrações cinzentas aparecendo pela mesma.

- Há quanto tempo eu não faço isso... – Apalpou o álbum murcho de capa magenta, com as poucas fotos e recordações de sua infância. Uma infância definitivamente perturbadora. Folheou a primeira página, que já estava meio comida nos cantos e leu as anotações que a sua professora havia feito em seu caderninho da 1ª série.

“Sra. Anice, peço que verifique o estado emocional de sua filha o mais breve possível e que a encaminhe a um profissional para avaliação, se necessário. Faço essa recomendação mediante ao fato de que certas coisas sem explicação vem ocorrendo com sua pequena. Atenciosamente, Professora Estela.”

A menina riu. Riu uma risada exagerada, ao ver o medo que causava nas pessoas desde criança. Lembrou de sua mãe reclamando que a professora era incompetente e despreparada. Riu um pouco mais suave, ao pensar no que teria ocorrido àquela mulher mirradinha, tão compreensiva... Pobre Estela. Ela era bem legal apesar de manter Abigail longe dos outros colegas, por pura precaução, é claro. O riso sumiu de seus lábios muito rispidamente. Era difícil pensar nas memórias de sua infância... Muitas lembranças desagradáveis vinham à tona na cabeça da garota, lembranças que causavam noites em claro e uma dor aguda em seu coração.

- Qual foi a primeira coisa que você moveu com a mente? A cabeça da boneca de uma das suas amigas, não foi? – tagarelou Aghata lambendo insistentemente a pata.

- Eu já disse para você sair daqui. – A menina mantinha os olhos fixos no teto, mais precisamente em uma mancha avermelhada que vinha aumentando há alguns dias. - O que será que o nosso vizinho anda aprontando... – pensou alto.

- Desculpe, mas arrancar a cabeça de uma boneca já soa bem tétrico, mas fazer isso sem encostar no brinquedo... É bem a sua cara. - Aghata movia-se por entre os móveis da sala com o rabo se movendo descontrolado. Abigail fez uma cara de desgosto. – Oh, pare com isso. Eu nunca te vi assim... Estamos passando por uma crise existencial?

- Você sabe que eu não gosto de falar sobre esse tipo de coisa. Guarde seu sarcasmo pra você, ou melhor, saia daqui agora! – Antes que pudesse concluir, seu celular tocou. - Quem é? - Perguntou com uma voz firme, quase cordial. - Ah, sim. Estou indo te encontrar.

Alguns minutos depois Abigail se encontrava em um café qualquer no centro da cidade, sentada numa mesa de canto de frente para a porta de entrada, para que pudesse ter uma boa visão de quem chegava. Os cotovelos estavam apoiados na mesa e os dedos batucavam de impaciência. Pediu um chocolate quente e ficou observando seu casaco de couro preto reluzindo cores quentes num fim de tarde agradável. Não demorou muito e um homem nem muito novo, nem muito velho adentrou o café de forma brusca, até fazendo algumas pessoas se virarem para olhar devido ao barulho, então se aproximou do balcão e falou num tom desnecessariamente alto.

- Um café forte e gelado, por favor.

O atendente fez uma cara feia devido a deselegância do homem e a estranhesa do pedido, mas mesmo assim foi buscar o tal café forte e gelado. Era assim que Abigail identificaria o estranho conhecido, como uma espécie de senha. O combinado tinha sido somente pedir um café forte e gelado, por alguns segundos ela se perguntou se ele havia feito todo aquele estardalhaço para garantir que ela o visse ou se ele era mau educado mesmo. Logo em seguida andou na direção do homem e sentou ao lado dele num dos banquinhos redondos com estofado plástico que circundavam o balcão.

- Com licença senhor. – O homem virou abruptamente, espantado. - Eu preciso do dinheiro o mais rápido possível para realizar o trabalho no prazo que o senhor deseja que seja efetuado. – Abigail disse num tom baixo, com a maior serenidade possível.

- Aqui está seu chocolate quente moça - O atendente colocou cuida duas xícaras no balcão, uma média e uma pequenina. - E seu café, senhor...

O sujeito nem agradeceu, estava ocupado demais olhando Abigail de cima a baixo com uma cara de espanto.

- Isso só pode ser uma brincadeira... Se eu soubesse que você era uma criança não tinha me dado o trabalho de vir até aqui. - Ele falou alguns segundos depois, quando o atendente já havia se distanciado o suficiente para que não ouvisse, em seguida deu uma risadinha debochada. - Esse dinheiro é para gente grande. – Dando uns leves tapinhas na mala preta que levava junto de si. – Passar bem. - Então desviou o olhar e tomou um gole do café.

- Gente grande assim como você? – Revirou os olhos. - Já devia saber que iam mandar mais um idiota me entregar o dinheiro. – A menina sorriu docemente, porém da forma mais cínica que pode. - Me dá essa pasta logo e a gente evita todo o drama da história.

O homem puxou a pasta, terminou o seu café e foi indo a direção à porta, ignorando-a de forma rude.

- Ei amigo! Será que você não está se esquecendo de alguma coisa?

Ele não pretendia realmente voltar os olhos de novo para ela, mas talvez por curiosidade virou-se sem paciência. Sua expressão mudou assim que viu a garota estendendo uma puída carteira de couro marrom. Assustado, retornou até a mesa e se sentou num estampido.

- Como você fez isso? – Arrancando a carteira da mão dela.

- Você não sabe nada sobre mim. – Abigail mexia com cuidado o chocolate quente, esbarrando a pequena colher na borda da xícara, provocando um cíclico tilintar. - A propósito, seus filhos não gostariam de comparecer a um velório em breve, senhor. Imagino que deve ser triste crescer sem pai. – Tirou de dentro de seu bolso uma carteira de identidade. – Não acha caro Soares? – Ela disse num tom muito íntimo.

- Eu... Não tenho filhos... - Ele gaguejou.

- Ah sim, imagino que as fotos dessas adoráveis crianças na sua carteira sejam de órfãos carentes que o senhor ajuda. – Respondeu a adolescente prontamente, o cinismo evocava de sua voz.

- Você é louca! – Soares segurou firme a carteira de identidade que já estava dentro de seu bolço e saiu estabanado do estabelecimento com a pasta apoiada nos braços que agora a circundavam.

Abigail observou-o através do vidro da imensa janela, até seus passos pequenos e rápidos virarem a esquina, deixando um rastro de pavor flutuando no ar.

- Além de idiota não é nada cavalheiro, asno. – Disse ela num tom muito mais magoado do que realmente se sentia. – Me deixou aqui para pagar a conta sozinha. – Tirou uma nota do bolso. Era um tanto alta para pagar apenas um café e um chocolate quente.

- O seu pai já foi embora moça? – Perguntou simpático, o atendente do café.

- Já! Ele não gostou muito do café daqui, aliás, pode ficar com o troco. – Levantou-se e com um sorriso atravessou a porta do café rapidamente.

A tarde morna havia dado lugar para um céu que escurecia aos poucos e nuvens carregadas se movimentavam lentamente anunciando uma noite sem lua. Do começo ao final da rua haviam árvores retorcidas que abrigavam pássaros, já bem encolhidinhos, preparando-se para dormir. Um ou outro ainda chegava voando e provocava um breve farfalhar de asas. Abigail seguia o Sr. Soares mantendo uma certa distância sem perdê-lo de vista, dava passos grandes e silenciosos enquanto os postes começavam a acender um por um. As luzes tremulavam em todos os lugares. Ela ia se aproximando dele cada vez mais, a medida que um sorriso sombrio ia se formando em seu rosto.

Num rápido movimento de ambos os braços, como se fosse abraçar o nada, a menina passou um fio de arame em volta do pescoço de Soares e apertou o máximo que pode, aparentemente não precisando fazer força nenhuma para sufocá-lo. Ele se debateu por alguns minutos até cair sem vida na calçada, o que seria aterrorizante, se ela não fosse tão pequena em comparação aquele sujeito com aparência de bandido.

Abigail se agachou e pegou a pasta que agora estava caída ao lado do dele. Virou as costas para o morto Soares e abriu a tranca, retirando todo o dinheiro que havia ali dentro. Começou a contar pelas notas de cem. Após algum tempo, guardou tudo de novo na pasta e, segurando-a, seguiu de forma silenciosa pelas ruelas escuras e desertas, sem olhar para trás. Quando chegou numa rua movimentada, entrou num táxi e pediu que o motorista a deixasse numa determinada rua, que ficava a algumas quadras de sua casa. Ali dentro pôs-se a observar os postes sendo deixados para trás e os carros que pareciam flutuar por detrás do vidro embaçado, no qual ela fazia estrelas com a ponta de seu indicador.

- Sabe... Uma menina da sua idade não deveria estar sozinha essa hora, tão longe de casa, é muito perigoso. – Os olhos do senhor que dirigia o táxi a fitavam com preocupação.

- Concordo. – Ela consentiu. – Nunca se sabe quando algum maníaco pode te sufocar num beco escuro. – O motorista se assustou com a frieza nas palavras da garota e, percebendo que a conversa estava acabada, manteve-se em silêncio durante todo o restante da corrida. - É aqui, o senhor pode parar. - Estava nos Jardins, nobre e bem frequentado bairro de São Paulo. Ela pagou pela corrida e saiu do táxi, caminhando distante; enquanto o assustado taxista afastava-se cada vez mais. Observou algumas vitrines, até que finalmente decidiu entrar em uma loja. Comprou duas peças de roupa e pediu que a atendente as colocasse em sacolas separadas - Abigail adorava andar segurando um monte de sacolas por aí, se fossem de marca melhor ainda.

Fez o costumeiro caminho até retornar a seu apartamentinho. Deprimiu-se um pouco ao notar que nenhuma força sobrenatural havia arrumado seu quarto, então deu um suspiro e voltou para a sala, sentou na frente do computador e o ligou. A tela acendeu e a foto de um garoto apareceu como plano de fundo. Ela se ajeitou na macia cadeira de estofado preto e apoiou seus pés nas rodinhas titubeantes enquanto uma pequena pop-up se abria com os dizeres “Eduardo está on-line”. Imediatamente a usual expressão sóbria de seu rosto transformou-se num imenso sorriso de orelha a orelha e Abigail clicou na pop-up e começou a digitar rapidamente. Ficou assim por algumas horas, fazendo pausas esporádicas e distraídas para olhar pela janela. As cortinas estavam abertas e a luz da lua invadia o apartamento trazendo-lhe um pouco mais de vida.

Terminou a conversa com uma simples mensagem de voz:

- Eu te amo, Du. - Desligou o computador e em seguida correu para a cozinha preparar algo para comer, ela geralmente esquecia até mesmo da suas necessidades mais básicas quando ficava no computador e a fome estava a deixando um pouco atordoada. Abriu uma das várias gavetas da cozinha procurando por uma faca e retirou um pão francês do forninho. Desajeitada cortou um pedaço de queijo para complementar seu lanche noturno e num rápido movimento descuidado a faca escorregou, abrindo um corte no seu dedo. - Ah, que maravilha. – Bufou.

- Eu não sei por que você se preocupa em fazer esses trabalhos manuais sendo que você pode fazer isso sem correr nenhum perigo. – Aghata adorava aparecer nas horas mais desagradáveis.

- Estou tentando parecer normal, se você ainda não percebeu. – Abigail respondeu num tom de desagrado, tentando cortar mais alguns pedaços de queijo e dando leves chupões no dedo ensanguentado.

- Se você tivesse vindo ao mundo para ser normal então assim você seria, mas você sabe muito bem que esse não é o seu destino...

Abigail ignorou o comentário de sua gata e soltou a faca de lado, o sanduíche estava pronto, então ela flexionou as pernas, como se planejasse sentar em alguma cadeira invisível e antes que ela caísse de bunda no chão poltrona branca veio flutuando pelo corredor e passou pela porta da cozinha, aterrizando bem a baixo dela.

- Eu sei. – A garota se acomodou na poltrona e olhou para Aghata, que se espreguiçava com toda a flexibilidade de um gato. Abigail soltou um lamurioso suspiro, agarrando o sanduíche que flutuava a alguns centímetros de sua mão. Algumas mordidas mais tarde, levantou-se e seguiu para o seu quarto lambendo os dedos, enquanto Aghata a seguia pomposamente e a poltrona flutuava para seu cômodo de origem: a sala. – Sabe de uma? Eu não estou muito feliz com a minha vida. Isso significa que e eu preciso de um tempo para pensar, então... Xô! – No mesmo instante a porta se fechou no focinho da gata e a menina se jogou na cama, de barriga para cima.

Abigail pensou. Pensou no dinheiro que precisava, no homem que a chamou de criança e não a levou a sério; pensou no ódio que sentia em relação a tudo e em como ele era glorioso. Seus pensamentos sempre foram o motivo de seu trabalho. Mesmo sabendo que Aghata não falava de verdade e que isso era apenas uma manifestação de sua consciência, ela não deixava de ficar estressada com os comentários ferozes que a bichana fazia. Por isso ela se apanhava em situações engraçadas, em que falava sozinha pela casa e às vezes se deparava com o morador da frente de olhos esbugalhados, sem entender o motivo da gritaria.

A menina passava uma parcela razoável de tempo sozinha, mas não gostava de ficar quieta. Então inventou Aghata, uma espécie de amiga imaginária, mas não foi exatamente de forma proposital que começou com essa maluquice. Foi engraçado a primeira vez que viu a gata discordando dela, mas depois de um tempo se acostumou.

Aghata era uma boa companhia no final das contas. Era muito difícil aguentar duas personalidades sozinha. A segunda personalidade de Abigail, ela gostava de chamar de Deusa, porque ele fazia tudo o que a menina não conseguia, tinha vergonha ou pudor, Deusa sabia o quão previsível as pessoas podiam ser e sabia como agir em todos os momentos. Deusa era Deusa, já Abigail, era simplesmente uma menina. Altamente destrutiva, claro, mas isso não era muito evidente em seus olhos.

Ela se estava real e fisicamente exausta. Queria permanecer acordada até que seu irmão chegasse em casa mas, antes que percebesse, havia caído num sono profundo. A noite passou rápido, como sempre passava quando não eram noites de insônia.

- Bom dia, dorminhoca! – Aghata lambia as bochechas de Abigail para acordá-la.

- Que nojo! – A garota se levantou num pulo. O relógio marcava onze e meia - ela havia dormido mais do que o necessário. Imediatamente pegou seu celular dentro do criado-mudo e mandou uma mensagem para o irmão que naquele momento estava dentro da sala de aula - a cabeça encostada na parede como de costume. Sua expressão de tédio não se abalou enquanto ele abria o zíper da mochila e discretamente retirava seu velho celular de dentro do bolso externo.

“Erico, venha almoçar em casa. Vou preparar alguma coisa agora. Beijos, Abi.”

A música que saia dos pequenos fones de ouvido escondidos entre os seus cabelos brancos o impedia de escutar muito mais que uns poucos ruídos lá do fundo da sala. As horas pareciam se arrastar terrivelmente para ele - a impressão que lhe dava é que estava sentado naquela carteira polida há meses.

O sinal tocou, fim da aula de biologia. Aliviado, ele prontamente se levantou, pegou a sua mochila e a jogou contra os ombros. A sensação de tédio que o consumia foi se esvaindo enquanto andava pelo corredor e passava pelo portão do colégio, que o separava da liberdade. “Finalmente férias!” Ele pensou. Deu alguns passos pela rua esburacada e tropeçou, fazendo com que o seu Ipod e o restante dos livros que ele tentava equilibrar na mão direita caíssem todos aleatoriamente no chão.

Erico sentiu seu estômago roncar ferozmente enquanto guardava seus pertences novamente na mochila e constatou que isso se devia ao horário. O sol já estava alto e era provável que passava do meio dia. Decidiu ir a uma padaria qualquer ali por perto e comer alguma coisa. Não estava disposto a viver exclusivamente da gororoba que sua irmã fazia e insistia em chamar de comida. Pegou o seu celular de um dos bolsos da calça larga, fazendo uma anotação mental que deveria trocá-lo em breve e ligou para Abigail. Deu uma desculpa qualquer sobre comprar alguns livros, assim ela ficaria sem ligá-lo por no mínimo uma hora e isso economizaria a paciência do garoto.

Alguns metros à frente Erico observou uma multidão se aglomerar em volta de um pequeno prédio vermelho e desgastado, com uns cinco andares aproximadamente, bem sem graça na opinião dele. Uma curiosidade incontrolável o induziu a conferir o que estava acontecendo.

- Saiam daí de baixo, todos vocês! Ninguém pode me impedir agora, eu vou me matar e ninguém pode fazer nada quanto a isso! – Um homem de meia-idade gritava a plenos pulmões, ameaçando se jogar do último andar. - Eu não aguento mais essa vida, nada dá certo, nunca! Por favor, se afastem. Minha decisão já foi tomada! Vocês não precisam ver isso.










(... Essa é a primeira parte do primeiro capítulo. Espero que vocês tenham gostado e comentem, xx)

One Comment

Back to Top